0497 - 素敵なMIO (Fio Maravilha) - Mariko Fuji [1984]


Como ouvinte, às vezes é preciso sair da zona de conforto para encontrar novos sons, novos horizontes musicais e novos artistas. Mas, como um humilde “garimpeiro” de versões cover, essa saída é quase obrigatória — sobretudo quando o “ouro” buscado são versões internacionais de músicas brasileiras.

Há algum tempo, na tentativa de encontrar adaptações em japonês de sucessos brasileiros, acabei descobrindo um subgênero musical nascido na terra do sol nascente: o city-pop. Variante do J-pop, o city-pop surgiu no final dos anos 1970 e atingiu seu auge na década seguinte. Fortemente influenciados pela música ocidental, especialmente a norte-americana, diversos artistas japoneses passaram a incorporar em seus trabalhos estilos até então pouco usuais no Japão, como jazz, fusion, synth-pop e R&B, além de ritmos como reggae, soft rock, música latina, francesa e brasileira.

Mais do que um gênero, o city-pop pode ser visto como um movimento urbano que refletia o momento de prosperidade econômica e tecnológica do Japão. Era a era do walkman, dos carros com toca-fitas embutidos e da popularização de instrumentos eletrônicos — como os sintetizadores da Yamaha — que moldaram a estética sonora daquele período.

Foi nesse mergulho que encontrei uma versão curiosíssima lançada em 1984 pela cantora e compositora Mariko Fuji: uma adaptação para o japonês do famoso hit brasileiro “Fio Maravilha”

Antes de nos aprofundarmos nessa versão, vale revisitar a origem da canção. “Fio Maravilha” é uma composição de Jorge Ben Jor, lançada originalmente pela cantora Maria Alcina no VII Festival Internacional da Canção (FIC), em 1972. No mesmo ano, Ben Jor — ainda assinando como Jorge Ben — incluiu a música em seu álbum Ben. A canção homenageia o jogador João Batista de Sales, o Fio Maravilha, atacante que marcou época no Flamengo — time do coração de Jorge Ben Jor.


Curiosamente, após o sucesso da música, o jogador entrou na justiça reivindicando direitos pelo uso do apelido. Magoado, Ben Jor passou a cantar “Filho Maravilha” em versões posteriores. Anos depois, o jogador voltou atrás, pediu desculpas e aceitou a homenagem — e o compositor retomou a letra original.

A música também ganhou o mundo. Em 1973, a cantora francesa Nicoletta lançou uma adaptação escrita por Boris Bergman. Infelizmente, ao analisar a letra em francês, percebe-se que ela apaga completamente o futebol e transforma a canção em um retrato distorcido do Brasil, reduzido a miséria e exotismo tropical. Ainda assim, a versão fez grande sucesso na França e em outros países europeus.


Voltando à versão japonesa: ela foi lançada no álbum ガラスの植物園 (The Glass Botanical Garden), sob o título 素敵なMIO (Fio Maravilha). A adaptação da letra ficou a cargo da própria Mariko Fuji, creditada no álbum sob o pseudônimo Anri Bibi.

Diferentemente da versão francesa, a adaptação japonesa não recorre a estereótipos sobre o Brasil — e tampouco faz referência ao futebol. Em vez disso, ela constrói uma narrativa de amor platônico, explorando sentimentos como nostalgia, admiração e a beleza de algo quase inalcançável. Quando Mariko Fuji canta sobre “Mio”, ela se refere a outra mulher, assumindo um ponto de vista observador, não autobiográfico — algo muito comum na estética emocional do city-pop dos anos 80.

Explorar versões internacionais de músicas brasileiras é, no fim das contas, um exercício constante de deixar a zona de conforto. Cada descoberta revela não apenas como nossas canções viajam, mas também como diferentes culturas escolhem reinterpretar o Brasil. Às vezes, o resultado é frustrante — como a versão francesa de Fio Maravilha, que apaga o futebol e reduz o país a um punhado de clichês, oferecendo uma visão estreita e empobrecida da nossa identidade.

Mas, em outras ocasiões, o garimpo recompensa. A adaptação japonesa 素敵なMIO, de Mariko Fuji, mostra exatamente isso: uma leitura sensível, moderna e emocionalmente sofisticada, que não tenta “representar o Brasil”, mas transforma a canção em algo moderno, estiloso do ponto de vista artístico, profundamente marcado pela estética do city-pop. É o tipo de achado que nos motiva a continuar garimpando — porque, às vezes, é fora da zona de conforto que o "ouro" realmente aparece.  

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