0486 - Disco Samba - Two Man Sound [1976]


Carnaval fora de época. Pois é, o Carnaval de 2022 caiu em Abril, algo impensável declamado até por Francis Hime em 80 na canção E se. Coisas impensáveis acontecem. E no mundo das covers não é diferente – covers impensáveis acontecem ou aconteceram.

Pois não é que um dos pot-pourri de covers de sambas e músicas brasileiras que mais fez sucesso mundialmente foi gravado em 1976 por um trio de artistas da Bélgica. E por que esses artistas belgas, reconhecidamente de uma terra que sofreu com inúmeras batalhas e guerras ao longo de sua história, a terra das cervejas, das histórias em quadrinhos, da batata frita e dos chocolates de alta qualidade, gravariam um pot-pourri de músicas brasileiras pleno anos 1970?

O tal pot-pourri ficou conhecido como Disco Samba e foi concebido pelo trio Two Man Sound, liderado por Lou Deprijck. Para falar da origem de Disco Samba, não há como não falar antes de Lou Deprijck. O idealizador do Two Man Sound era um tanto irreverente. Apesar de não ser comediante, sua irreverência era tal que batizou o trio de “Two Man”.
 
Deprijck não era propriamente um músico, mas se aventurou pela música como produtor regravando músicas brasileiras para lançá-las na Europa. Quase sempre antenado, foi capaz de capitalizar nas mínimas oportunidades que surgiam a sua frente para fazer sucesso e assim ganhar dinheiro. Foi assim que ele ganhou dinheiro sendo um dos autores de Ça Plane Pour Moi, um clássico do punk francês, história para um outro post.  

Lou teve a ideia de gravar versões de sucessos brasileiros cantando num português quase ininteligível e fazendo dançinhas engraçadas (muito antes do Tik Tok). E por mais estranho que se possa imaginar, essa ideia começou a render "bons frutos" com a cover da música Charlie Brown, sucesso de Benito di Paula, que foi lançado pelo Two Man Sound em 1975 num estilo disco music (bem longe do samba original) dançando de forma engraçada e se apresentando na TV vestido de forma engraçada, como se fossem turistas no Rio de Janeiro. A cover ficou no Top30 do chart Belga poucos meses depois do lançamento aqui no Brasil. 

Graças ao sucesso do Two Man Sound com a cover de Charlie Brown na Europa, muitos outros artistas europeus também regravaram este sucesso adaptando-o para o idioma de seu país – história já contada neste post

Capitalizar em cima de Charlie Brown de Benito di Paula não foi a única esperteza do Two Man Sound. Cantar uma música em português ininteligível num estilo disco music adaptado de um samba clássico e ainda assim fazer sucesso foi algo bem ousado. O Two Man Sound e Lou Deprijck poderiam ter parado por aí, mas não foi assim.

Desde sua fundação, o Two Man Sound contando também com Sylvain Vanholme (na guitarra e baixo) e Yves Lacomblez (também conhecido como Pipou na percussão) sempre regravaram covers de canções clássicas de artistas latinos, principalmente músicas do nosso grande Jorge Ben Jor. Não se sabe bem ao certo, mas muito provavelmente havia uma certa complacência das gravadoras e dos artistas originais em deixar o Two Man Sound regravar suas canções. Tanto é que logo depois de gravar Charlie Brown, o Two Man Sound gravou um medley intitulado Africa ~ Brasil Suite de 13 minutos em seu disco Oye Como Va de 1977 onde ficou registrado a autoria Sylvain Vanholme, mas que muito provavelmente são covers de vários sucessos do clássico álbum África Brasil de Jorge Ben Jor e que os belgas não precisaram pagar direitos autorais algum e até hoje não temos conhecimento se eles foram processados pelo artista brasileiro.


Outro sucesso de Jorge Ben Jor, País Tropical, ganhou uma adaptação bem amalucada do Two Man Sound chamada So Fla-Fla. Essa cover usou apenas o famoso trecho do sucesso de País Tropical em que é cantado “Sou Fla Fla, Ela é Meme” e nem sequer teve um crédito mínimo citando a fonte.


Dentre outras ousadias deste tipo, o Two Man Sound regravou o cântico “Olê Olá o Flamengo Tá Botando Prá Quebrar” famoso na década de 70 cantado em uníssono pela torcida Rubro Negra e a registrou com o título Flamengocada colocando como autores o próprio Lou Deprijck e Sylvain Vanholme – pode isso Arnaldo?


Mas a maior ousadia de todas foi mesmo ter feito o pot-pourri Disco Samba. Este medley lançado em 1976 possui nada mais nada menos que 19 excertos de clássicos da nossa MPB, sambas enredos da escola de samba Salgueiro e até um baião do Gonzagão. O mais incrível é que nem todas as 19 canções receberam os devidos créditos – novamente deve ter havido uma certa complacência com o Two Man Sound. Melhor para os belgas que fizeram um grande sucesso nas discotecas não só da Europa como de toda América Latina.

Em 2017 foi a primeira vez que tive contato com Disco Samba pela internet. O meu interesse por esse pot-pourri surgiu muito por conta da cover de Charlie Brown. Logo quando a ouvi fiquei encafifado com as músicas e sai em busca de mais informações. Para minha surpresa, descobri através do site Discogs que os créditos para os 19 excertos estavam incorretos.

Ouça aqui o pot-pourri completo:


Logo após uma primeira audição é possível identificar a maioria das músicas originais. Poucos são foram os trechos que não identificamos logo de cara. Quando pequisamos seus créditos, encontramos vários erros inadmissíveis. Por exemplo, o famoso baião Sebastiana (a e i o u ipsolne), composição de Rosil Cavalcanti eternizado na voz de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro estava creditado para Lou Deprijck e o trecho "Sou Fla Fla, Ela é Meme" creditado novamente para Lou Deprijck. Mas o pior dos erros é do trecho que começa com “Bahia” e termina com “Zum Zum Zum, Capoeira Mata Um” que é uma clara menção ao samba enredo de 1969 Bahia de Todos os Deuses da escola de samba Salgueiro, composição de Manuel Rosa e Bala, e que nem é citado nos créditos de Disco Samba.


Esses erros me levaram a indignação. Apesar de reconhecer que o Two Man Sound havia feito um ótimo trabalho colocando todos estes clássicos num remix disco muito bem produzido, foi um erro não darem os créditos ou creditarem incorretamente.

Para acabar com essa indignação, fiz um comentário num dos milhares vídeos de Disco Samba existentes no YouTube onde coloquei todos os créditos de forma correta, conforme os trechos vão aparecendo no pot-pourri, o qual republico aqui: 

01 - Taj Mahal - Jorge Ben Jor - 0:15
02 - Upa Neguinho - Edu Lobo - 0:30
03 - Zazueira - Jorge Ben Jor - 0:50
04 - Sebastiana (a e i o u ipslone) - Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, entre outros (compositor Rosil Cavalcanti) - 1:06
05 - Fio Maravilha - Jorge Ben Jor - 1:18
06 - Brigitte Bardot - Miguel Gustavo e Jorge Veiga - 1:33
07 - Caramba... Galileu da Galiléia - Jorge Ben Jor - 1:47
08 - País Tropical (Sou Fla Fla, Ela é Meme) - Jorge Ben Jor - 2:03
09 - Aquarela do Brasil - Ary Barroso - 2:33
10 - Você Abusou - Antonio Carlos e Jocáfi - 2:52
11 - Nega de Obaluaê - Wando - 3:23
12 - Tristeza - Haroldo Lobo e Niltinho - 3:37
13 - Charlie Brown - Benito di Paula - 3:53
14 - Festa Para Um Rei Negro (O-lê-lê, ô-lá-lá, pega no ganzê, pega no ganzá) – samba enredo da escola de samba Salgueiro em 1971 - 4:12
15 - Velha Baiana (Mariana) - R. Souza, Olho Verde e Paulo Brazão - 4:29
16 - Mais Que Nada - Jorge Ben Jor - 4:44
17 - Desacato - Antonio Carlos e Jocáfi - 5:08
18 - Ole olá o Flamengo tá botando pra quebrar – cântico da torcida do Flamengo - 5:42
19 - Bahia de Todos os Deuses (Zum zum zum zum zum zum) - samba enredo da escola de samba Salgueiro em 1969 - 6:00
20 - Charlie Brown - Benito di Paula - 6:42

Em 1990 numa tentativa do Two Man Sound alcançar um novo sucesso só que agora "surfando a onda do poperô", foi lançado o Samba Mégamix, que nada mais é que uma cover de Disco Samba com um pouco mais de batidas eletrônicas. O pot-pourri é praticamente o mesmo exceto pelo fato de ter sido incluido um trecho da canção Partido Alto de Chico Buarque (4:22).


Com tudo isto, o Two Man Sound fez um grande “carnaval fora de época” e bem fora do ritmo normal, se utilizando da disco music. Sua motivação talvez tenha sido aproveitar-se de sucessos de outrem para ver se obtém algum sucesso na rabeira. Curiosamente aqui no Brasil quase ninguém sabe da existência do Two Man Sound e muito menos de Disco Samba. No entanto, em vários países e mais especificamente na Bélgica, Holanda, França, Espanha e Itália e em grande parte da América Latina (principalmente na Argentina, Peru, Colômbia e México), Disco Samba foi um estrondoso sucesso. Não sabemos se é verdade ou se foi um golpe de marketing, mas existem edições de Disco Samba em que a capa do disco dizia que havia sido vendido mais de 3 milhões de cópias...


Coisas e covers improváveis que acabaram dando certo juntas e misturadas, mas que poderiam ter todos os créditos dados de forma correta.

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4 Comentários
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  1. Está era uma faixa da fita k7 do Club Med Rio da Pedras, na década de 80.

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  2. https://open.spotify.com/playlist/3gQnNXSZs8NqXXsTGbhRa5

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  3. Depois dessa podiam fazer um post sobre Uptown Festival (https://www.discogs.com/master/131137-Shalamar-Uptown-Festival)

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  4. obs. essa era a fita: https://www.discogs.com/release/8412985-Club-Med-The-Music

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